Quando pensamos em “aprender”, quase sempre focamos nas ferramentas cognitivas: memória, atenção, raciocínio, conteúdo. Corremos atrás de métodos, aplicativos e reforço escolar. No entanto, esquecemos o alicerce sobre o qual tudo isso é construído: o emocional.
Ninguém aprende em um ambiente onde se sente amedrontado, julgado ou incapaz. Para o cérebro, a sensação de ameaça (mesmo que seja “apenas” o medo de errar ou de levar uma bronca) ativa os mesmos sistemas de alerta da sobrevivência.
E quando o cérebro está em modo de “luta ou fuga”, ele desliga as áreas superiores responsáveis pelo aprendizado complexo.
É por isso que, antes de qualquer técnica pedagógica, o psicopedagogo oferece algo mais básico e essencial: a escuta ativa e o acolhimento.
O que é Acolhimento na Aprendizagem?
Acolher não é “passar a mão na cabeça” ou ignorar as dificuldades. Pelo contrário.
Acolhimento, no contexto psicopedagógico, é criar um espaço seguro onde a criança ou adolescente tem permissão para ser quem é, inclusive com suas dificuldades. É o adulto dizendo (com atitudes, mais do que com palavras): “Eu estou aqui com você, e não contra você. Vamos descobrir isso juntos.”
É validar o sentimento da criança (“Eu sei que a matemática parece assustadora agora”) antes de pular para a solução (“Mas você tem que fazer a conta”).
O “Não Sei” como Ponto de Partida, Não de Chegada
Em um ambiente escolar tradicional, o “não sei” é visto como fracasso. Em casa, muitas vezes, é recebido com impaciência (“Como assim não sabe? Eu acabei de explicar!”).
Essa reação ensina à criança que errar é perigoso. Rapidamente, ela aprende a se defender: ela finge que entendeu, cola do colega, ou simplesmente “trava”, preferindo não tentar a tentar e falhar.
O acolhimento muda essa dinâmica. Ele transforma o “não sei” em “ainda não sei”. A escuta ativa do psicopedagogo (e que os pais podem praticar) foca em entender o porquê do “não sei”.
Escuta Ativa: O que seu filho NÃO está dizendo?
Muitas vezes, a dificuldade de aprendizagem é a “ponta do iceberg”. Por baixo, existe uma narrativa que a criança criou sobre si mesma.
Quando uma criança diz “Eu odeio ler”, ela pode estar, na verdade, comunicando:
- “Eu me sinto burro quando tento ler perto dos meus amigos.”
- “Eu demoro muito para ler e tenho medo de ser o último a terminar.”
- “As letras parecem confusas e isso me deixa ansioso.”
A escuta ativa é a capacidade de ouvir além do “Eu odeio ler”. É fazer a pergunta-chave: “Me conta mais sobre isso. O que é chato na leitura para você?”.
O Ciclo Virtuoso: Acolhimento Gera Vínculo, Vínculo Gera Confiança
Quando a criança se sente segura e acolhida, ela se permite ficar vulnerável. E é na vulnerabilidade que o aprendizado acontece.
Ela começa a trocar o “Eu não consigo” pelo “Me ajuda?”.
Por isso, em casa, antes de abrir o caderno na página da lição, reserve dois minutos. Pergunte como seu filho se sente em relação àquela matéria. Escute sem interromper. Valide. Só então, depois de criar essa ponte emocional, é que a ponte cognitiva (o conteúdo) pode ser construída.
Aprender é, acima de tudo, um ato de coragem e confiança. E o acolhimento é o que torna essa coragem possível.